A difícil arte do bilboquê
"Eu trouxe a corda só me falta a caçamba e sei que você tem ..."
O bilboquê é um jogo antigo e atávico - todos os povos o praticaram sem a necessidade de difusão de um para o outro (!). O bilboquê é uma distração metafísica que treina reflexos mediante a necessidade de equilibrar e lançar um receptáculo proporcionalmente grande, com um orifício pequeno, de modo que este se encaixe sobre uma base penetrante. O êxito ocorre quando, de qualquer forma, se der a penetração e penetrado permanecer o buraco pequeno do receptáculo grande.
A leitura do parágrafo já evidencia o desafio do bilboquê: por óbvio que seria muito mais fácil pegar a base penetrante rombuda e introduzi-la no buraco do receptáculo grande e voilá, você teria acabado de bilbocar - ao contrário e trapaceando, mas bilbocado mesmo assim. O bilboquê traz essa dificuldade que lhe é essencial e ele zomba do jogador que decide bilbocar ao contrário porque mais simples e exitoso. Durante toda a infância tive suprema raiva do zombante bilboquê e do eterno desafio que propunha, fitando-me soberano da estante de brinquedo: "topas?" Nunca gostei.
O atavismo da brincadeira bilboquiana não é outro senão aquele de outras metafísicas humanas, embora mais úmidas e interessantes (he). Para uma menina que abominava o bilboquê e que cultivou o (mau) hábito de pensar, a posição da amazona parece muito pouco prática do ponto de vista mecânico: ora, não é muito mais fácil bilbocar ao contrário? Não é verdade que, bilbocando ao inverso, possibilitam-se milhares de bilbocadas por segundo, com muito menos esforço e maior precisão? Então para que mexer em bilboquê que está ganhando?
Bastante óbvio que ninguém se entrega a atos metafísicos úmidos e selvagens para obter o máximo rendimento com o mínimo de estocadas e é por isso, e só por isso, que amazonas pouco habituadas cedem a pedidos sorridentes, propondo jogar o bilboquê da forma mais ortodoxa possível. Timidamente as moças explicam, em poucas palavras, serem péssimas jogadoras de bilboquê. Mas eles não ligam. Eles não querem ganhar, não estão interessados numa interação taylorista. Querem é se divertir com a coisa toda, ainda mais hilária e terna pela inépcia mecânica e expressão surpresa da menina redescobrindo-se e vencendo temores.
No game. Just play.
Sobre a origem do bilboquê, aqui.




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